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sexta-feira, 10 de março de 2017

Trabalho, vocação e aposentadoria.
Mentoris - Gustavo Brandão
Enquanto nosso paradigma e modelo de trabalho derivar do conceito de “maldição”, fruto de uma interpretação teológica equivocada da tradição cristã, o teremos como sendo o cumprimento de uma pena: o homem foi ‘condenado’ a trabalhar.
Assim, no imaginário popular o que se puder fazer para burlar esta sentença, será feito. Até mesmo dar ‘jeitinhos’, pagar santos ou políticos ou empreiteiros ou religiosos e suas mandingas pra ‘facilitar’ as coisas neste plano existencial ou em outro, trocando promessas por favores. Esta cultura de toma-lá-dá-cá é a base da corrupção. Nesse contexto, o trabalho é coisa para otários.
Porém a verdadeira maldição não é o trabalho em si, mas o trabalho sem propósito ou com o desígnio errado. O propósito correto e transcendente é chamado de vocação, ou “beruf”, nas palavras de Max Weber em sua obra ‘A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo’. Desta forma, o exercício de uma vocação é muito mais do que uma profissão ou ocupação, mas exatamente o trabalho revestido de significado.
Por mais importante que seja, não é o trabalho que dignifica o homem. Apenas o homem livre pode dar significado e dignidade ao que faz, seja lá o que for. Isso não é tarefa do patrão nem do governo. Quem transfere a dignidade do que faz a um diploma, um cargo ou a algum condicionamento cultural torna-se escravo do fazer para ter alguma coisa, desde bens materiais até reconhecimento de algum grupo.
À igreja, pensando em nossa sociedade ocidental cristã, interessa muitas vezes passar o conceito de ‘maldição’ com um objetivo apenas: a de pretender redimir o homem fazendo-o contribuir com o suor de seu rosto para alcançar o lar celestial e domesticar ao mesmo tempo o ser social. Desta forma, os tributos ou indulgências eclesiásticos visam sustentar a máquina religiosa em troca da salvação ou pacificação do espírito do contribuinte duplo: do estado e da igreja. Eles sempre cooperam para objetivos comuns.
Dentro do contexto histórico, muitas coisas permitiram que as sociedades modificassem a essência de suas relações, sendo que o fim dos laços de solidariedade que determinavam o equilíbrio entre as diversas formas sociais foram sendo desfeitos e favorecendo, insidiosamente, grupos que se viram amparados por ideologias e, consequentemente, suas teorias econômicas. Assim o conceito de homem e de sociedade migrou do homem cordial para o de homem econômico. Isso trouxe consequências.
O ser humano é um ser social antes de ser econômico, por mais que se tente medir o ser pelo ter. Durante boa parte de sua existência a humanidade procurou viver em sociedade, fazendo das relações humanas a base de todas as coisas – inclusive dos conflitos e da busca de soluções para as tensões existenciais de sempre. Os arranjos aconteciam buscando resguardar a integridade das diversas culturas, cada uma mantendo suas características em maior ou menor escala. Quando os aspectos culturais eram destruídos, isso era devido a um conflito aberto, dramático, na típica relação de conquistadores para conquistados.
Insidiosamente, entretanto, novas formas de relações sociais foram tomando conta dos grupos, povos e sociedades. Novas atitudes, novas práticas comerciais, novas ideologias, novas teologias, foram construindo a complexa rede de relações que transformaram o homem cordial em um ser moldado e regulado basicamente pelo Mercado, enquanto sistema econômico moderno. Uma nova visão de mundo aconteceu e passou a controlar e determinar as ações e relações humanas (Karl Polanyi, “A Grande Transformação: as origens da nossa época.” 1944).

Destas novas relações surgiram três grandes mercadorias: o trabalho, terra e dinheiro.

A base de uma economia de mercado é um sistema econômico controlado, regulado e dirigido apenas por mercados. A ordem de produção e distribuição de bens é confiada a esse mecanismo autorregulável. Autorregulação significa que toda produção é para a venda no mercado. O que está à venda?
“Todos os rendimentos derivam de tais vendas. Por conseguinte, há mercado para todos os componentes da indústria, não apenas para os bens (sempre incluindo serviços), mas também para o trabalho, a terra e o dinheiro, sendo seus preços chamados respectivamente, preços de mercadorias, salários, aluguel e juros. Os próprios termos indicam que os preços formam rendas: juro é o preço para o uso do dinheiro e constitui a renda daqueles que estão à disposição de fornecê-lo. Aluguel é o preço para o uso da terra e constitui a renda daqueles que a fornecem. Salários são os preços para o uso da força de trabalho, que constitui a renda daqueles que a vendem.” (Polanyi)
Isso trouxe sérias consequências para as relações humanas, que passaram a ser cada vez mais utilitaristas, frias e precificadas. O homem tornou-se cada vez mais apenas um objeto empregado para gerar dinheiro para o governo e outros homens que exploram seu tempo.
Quem trabalha apenas trocando seu tempo por salário é realmente um maldito empregado. E todo amaldiçoado é um escravo.
Lembro bem quando surgiram os computadores: agora as pessoas poderão fazer mais rapidamente seu trabalho, podendo ter mais tempo para si, diziam. Porém, a velocidade para obtenção de resultados financeiros foi o que passou a determinar a produção. O que se produzia em uma semana passou a ser produzido em um dia e a pressão só aumentou. Para que?
Por outro lado, quem exerce uma vocação é livre para dar a dimensão e o propósito que desejar para sua vida e para o que faz, seja lá o que for. Uma vida mais simples, com qualidade, sem ser definida pelo ter mas sendo senhora de seu tempo e de sua produção.
Somente quem é livre consegue estabelecer os limites que separam a sua vocação da escravidão. O conceito de ‘aposentadoria’ está atrelado a uma qualidade de vida de “merecido descanso.” Mas se a vida é com qualidade antes, para que se desejar um depois, quando o corpo e a saúde já não permitem a mobilidade de outrora?
Sacrificamos a juventude, o tempo, a saúde, ...,  para conquistar bens para usufruir quando não tivermos mais juventude, saúde e tempo. Não tem sentido, é a mentira do mercado nos bancos escolares para servir os deuses que queimam gerações em suas máquinas de guerra e exploração.
Percebe-se com isso que a discussão da 'aposentadoria' nada mais é do que a discussão entre os senhores do mercado e seus escravos. E escravo, todos sabem, não tem poder de decisão, apenas de revolta.
Dizem que um novo mundo, um novo ser, uma nova vida seja possível.
Acredito que sim, mas você saberia como?



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