Seguidores

sexta-feira, 10 de março de 2017

Trabalho, vocação e aposentadoria.
Mentoris - Gustavo Brandão
Enquanto nosso paradigma e modelo de trabalho derivar do conceito de “maldição”, fruto de uma interpretação teológica equivocada da tradição cristã, o teremos como sendo o cumprimento de uma pena: o homem foi ‘condenado’ a trabalhar.
Assim, no imaginário popular o que se puder fazer para burlar esta sentença, será feito. Até mesmo dar ‘jeitinhos’, pagar santos ou políticos ou empreiteiros ou religiosos e suas mandingas pra ‘facilitar’ as coisas neste plano existencial ou em outro, trocando promessas por favores. Esta cultura de toma-lá-dá-cá é a base da corrupção. Nesse contexto, o trabalho é coisa para otários.
Porém a verdadeira maldição não é o trabalho em si, mas o trabalho sem propósito ou com o desígnio errado. O propósito correto e transcendente é chamado de vocação, ou “beruf”, nas palavras de Max Weber em sua obra ‘A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo’. Desta forma, o exercício de uma vocação é muito mais do que uma profissão ou ocupação, mas exatamente o trabalho revestido de significado.
Por mais importante que seja, não é o trabalho que dignifica o homem. Apenas o homem livre pode dar significado e dignidade ao que faz, seja lá o que for. Isso não é tarefa do patrão nem do governo. Quem transfere a dignidade do que faz a um diploma, um cargo ou a algum condicionamento cultural torna-se escravo do fazer para ter alguma coisa, desde bens materiais até reconhecimento de algum grupo.
À igreja, pensando em nossa sociedade ocidental cristã, interessa muitas vezes passar o conceito de ‘maldição’ com um objetivo apenas: a de pretender redimir o homem fazendo-o contribuir com o suor de seu rosto para alcançar o lar celestial e domesticar ao mesmo tempo o ser social. Desta forma, os tributos ou indulgências eclesiásticos visam sustentar a máquina religiosa em troca da salvação ou pacificação do espírito do contribuinte duplo: do estado e da igreja. Eles sempre cooperam para objetivos comuns.
Dentro do contexto histórico, muitas coisas permitiram que as sociedades modificassem a essência de suas relações, sendo que o fim dos laços de solidariedade que determinavam o equilíbrio entre as diversas formas sociais foram sendo desfeitos e favorecendo, insidiosamente, grupos que se viram amparados por ideologias e, consequentemente, suas teorias econômicas. Assim o conceito de homem e de sociedade migrou do homem cordial para o de homem econômico. Isso trouxe consequências.
O ser humano é um ser social antes de ser econômico, por mais que se tente medir o ser pelo ter. Durante boa parte de sua existência a humanidade procurou viver em sociedade, fazendo das relações humanas a base de todas as coisas – inclusive dos conflitos e da busca de soluções para as tensões existenciais de sempre. Os arranjos aconteciam buscando resguardar a integridade das diversas culturas, cada uma mantendo suas características em maior ou menor escala. Quando os aspectos culturais eram destruídos, isso era devido a um conflito aberto, dramático, na típica relação de conquistadores para conquistados.
Insidiosamente, entretanto, novas formas de relações sociais foram tomando conta dos grupos, povos e sociedades. Novas atitudes, novas práticas comerciais, novas ideologias, novas teologias, foram construindo a complexa rede de relações que transformaram o homem cordial em um ser moldado e regulado basicamente pelo Mercado, enquanto sistema econômico moderno. Uma nova visão de mundo aconteceu e passou a controlar e determinar as ações e relações humanas (Karl Polanyi, “A Grande Transformação: as origens da nossa época.” 1944).

Destas novas relações surgiram três grandes mercadorias: o trabalho, terra e dinheiro.

A base de uma economia de mercado é um sistema econômico controlado, regulado e dirigido apenas por mercados. A ordem de produção e distribuição de bens é confiada a esse mecanismo autorregulável. Autorregulação significa que toda produção é para a venda no mercado. O que está à venda?
“Todos os rendimentos derivam de tais vendas. Por conseguinte, há mercado para todos os componentes da indústria, não apenas para os bens (sempre incluindo serviços), mas também para o trabalho, a terra e o dinheiro, sendo seus preços chamados respectivamente, preços de mercadorias, salários, aluguel e juros. Os próprios termos indicam que os preços formam rendas: juro é o preço para o uso do dinheiro e constitui a renda daqueles que estão à disposição de fornecê-lo. Aluguel é o preço para o uso da terra e constitui a renda daqueles que a fornecem. Salários são os preços para o uso da força de trabalho, que constitui a renda daqueles que a vendem.” (Polanyi)
Isso trouxe sérias consequências para as relações humanas, que passaram a ser cada vez mais utilitaristas, frias e precificadas. O homem tornou-se cada vez mais apenas um objeto empregado para gerar dinheiro para o governo e outros homens que exploram seu tempo.
Quem trabalha apenas trocando seu tempo por salário é realmente um maldito empregado. E todo amaldiçoado é um escravo.
Lembro bem quando surgiram os computadores: agora as pessoas poderão fazer mais rapidamente seu trabalho, podendo ter mais tempo para si, diziam. Porém, a velocidade para obtenção de resultados financeiros foi o que passou a determinar a produção. O que se produzia em uma semana passou a ser produzido em um dia e a pressão só aumentou. Para que?
Por outro lado, quem exerce uma vocação é livre para dar a dimensão e o propósito que desejar para sua vida e para o que faz, seja lá o que for. Uma vida mais simples, com qualidade, sem ser definida pelo ter mas sendo senhora de seu tempo e de sua produção.
Somente quem é livre consegue estabelecer os limites que separam a sua vocação da escravidão. O conceito de ‘aposentadoria’ está atrelado a uma qualidade de vida de “merecido descanso.” Mas se a vida é com qualidade antes, para que se desejar um depois, quando o corpo e a saúde já não permitem a mobilidade de outrora?
Sacrificamos a juventude, o tempo, a saúde, ...,  para conquistar bens para usufruir quando não tivermos mais juventude, saúde e tempo. Não tem sentido, é a mentira do mercado nos bancos escolares para servir os deuses que queimam gerações em suas máquinas de guerra e exploração.
Percebe-se com isso que a discussão da 'aposentadoria' nada mais é do que a discussão entre os senhores do mercado e seus escravos. E escravo, todos sabem, não tem poder de decisão, apenas de revolta.
Dizem que um novo mundo, um novo ser, uma nova vida seja possível.
Acredito que sim, mas você saberia como?



segunda-feira, 30 de maio de 2016

Solitude


The Lion And The Bird

Estar só é ruim quando não temos boas lembranças,
A solitude é sempre uma esperança!

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Silêncio e, em breve, reativando
"Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais." 
Fernando Pessoa.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Generosidade!

Generosidade!

O período de Natal é mundialmente conhecido como o maior período do ano para compras e trocas presentes. Isto porque as pessoas entendem que a melhor forma de agradar umas às outras é comprando coisas uma para as outras.

Mas será mesmo?

O Natal tornou-se uma época onde dois sentimentos andam juntos e misturados: a vontade de sair comprando e o fato de você acabar se irritando. Isto porque o que as pessoas realmente precisam não pode ser comprado por dinheiro algum. Por que, afinal, concentrar em um único período, a temporada de Natal, o que deveria ser distribuído ao longo de todo ano?

Não falo de coisas que o dinheiro pode comprar. Penso naqueles itens que não têm preço. Afinal, ainda acredito que tem certas coisas que o dinheiro não compra e que são verdadeiros tesouros. Se estivermos educando nossos filhos e netos apenas dentro de uma cultura de consumo, seremos também no futuro apenas mais um produto empoeirado na prateleira das relações utilitárias.

Em outras palavras, seremos coisificados e, como toda bugiganga, perderemos o valor e a capacidade de encantar. Muitas vezes mais rápido do que prosseguir até o final desta leitura, seremos descartados da mesma forma que aqueles presentes geniais que ninguém sabe o que fazer com eles: ficam dentro do armário por anos, até que acabam indo para algum bazar beneficente. No caso de pessoas, o esquecimento na medida em que perdem sua “utilidade”.

Amor, fé, esperança, carinho, respeito, gentileza, tolerância, bondade, educação e a lista vai crescendo por outras ações e atitudes que possuem valor inerente, inseparáveis de quem as dá – bem diferente de um preço colocado pelo mercado. Daí o seu valor ser inestimável! É como aquele desenhinho que um filho dá para seus pais e que estes guardam pela vida inteira, enquanto que aquele famoso celular foi trocado por outro modelo nem mesmo um ano depois. Na velhice, encontram o desenho amarelado dentro de um livro, fecham os olhos e o caminho da lágrima que escorre remete aos primeiros passos, a primeira palavra, o primeiro abraço.... isso não tem preço!

Que tal colocar isso tudo dentro de uma palavra, a generosidade?

Podemos até, mesmo correndo alguns riscos, dizer que a generosidade é como dinheiro em alguns aspectos. Existem pessoas que gastam de coração aberto, sem esperar nada em troca, e aquelas outras que são mesquinhas até o último centavo, agindo apenas numa relação de troca.

Na bíblia existe um verso que é usado de maneira errada dentro de um contexto financeiro, denunciando que a “ética” capitalista dominou o espírito cristão. A passagem, porém, diz exatamente o contrário: “-mais bem aventurado é dar do que receber.” Ora, o Apóstolo Paulo recordava as palavras de Jesus ao estimular seus irmãos a serem generosos com sua própria vida, abrindo mão de sua presença em favor de outras pessoas. Ele deveria seguir em sua missão para outro local e a comunidade temia por sua vida. Em outras palavras, sua mensagem foi: sejam generosos, permitam que eu me vá e cumpra minha missão!

O verdadeiro amor é generoso: o que recebemos em liberdade e de boa vontade deve ser igualmente repartido. Nada é definitivamente meu, até o momento que eu o considere definitivamente livre. Ninguém pode impor a sua presença ou exigir o amor de quem quer que seja.

O melhor presente não custa dinheiro – mas demanda tempo e atitude. O tempo investido na atitude correta retornará com muitos juros e dividendos que valerão por toda a vida. Ser generoso significa investir na vida de alguém sem esperar nada em troca, pois em primeiro lugar a generosidade beneficia aquele que a pratica. É uma coisa como “ser um egoísta do bem”!

Além da gratuidade, a generosidade pode ser anônima também. Podemos fazer muitas coisas por pessoas que nem sequer conhecemos. Isto aumenta o impacto e inverte a relação mercantil que tomou conta de nossa sociedade, que basicamente é regulada pelo mercado.

Como ser generoso? Cada um sabe, em seu contexto, como fazer um gesto de generosidade conforme o tempo que desejar investir. Mas existem muitas formas criativas e impactantes.

- Faça uma lista do tipo “Top-10” de pessoas (ou qualquer outro número que considerar viável) que realmente te inspiram, motivam ou influenciam positivamente na sua vida. Veja, tem que ser gente real, de seu círculo de relacionamentos (íntimos ou amigos)! Jesus, Gandhi e Mandela, deixa pra agradecer depois, pessoalmente. Se puder, divulgue a lista e diga por que você é grato a elas! A lista é sua, o motivo é seu e ninguém tem nada a ver com isso, mas todos irão sentir uma onda de amor. É claro, você pode simplesmente fazer a lista e enviar uma mensagem individual e diretamente para cada uma das pessoas. A gratidão é uma moeda em falta no mercado e por isso quando é feita publicamente, possui um impacto tremendo!

- Que tal escrever a resenha de algum livro que você realmente achou bom e divulgar para sua comunidade, ou em algum site de publicações. Muitas pessoas vão gostar. Imagina agora se você conhece o autor, ele ficará muito feliz!

- Divulgue uma lista de profissionais e/ou serviços que te impactaram positivamente. Claro, foi tua experiência, mas não tenha medo de elogiar! Todos sabem que eventualmente, por algum motivo, tudo pode dar errado. Mas não deixe o risco impedir sua generosidade. Afinal, se você corre o risco com aplicações financeiras e empréstimos, porque não correr investindo em pessoas?

- Em vez de simplesmente “curtir” alguma coisa nas mídias sociais, procure também dizer de vez em quando porque aquilo te fez bem.

- Perdoe. Isso mesmo, libere a pessoa de alguma dívida: pessoal, financeira, emocional, contratual, espiritual... você perceberá que o alívio que a pessoa sentirá será muito pequeno perto da paz que te inundará.

- Distribua “obrigados” com um abraço de vez em quando – de maneira sincera. Todos percebemos a diferença entre abraços formais e aqueles que realmente contém significância.

- Se não puder estar presente, liga para a pessoa em vez de mandar um torpedo de “feliz aniversário”. Lembre-se: a generosidade demanda tempo e atitude, e qualquer pessoa saberá reconhecer seu gesto, por menor que seja.

- Uma lembrancinha inesperada, um abraço gratuito, um sorriso sincero; um "muito obrigado por limpar minha sala" para a tia da limpeza, juntamente com uma florzinha; aquela atenção especial para alguma criança. 

- A caridade, a bondade, dar a vez para alguém, abrir uma porta, carregar uma sacola de compras, acompanhar alguém numa rua deserta até seu carro,....

- E com o porteiro, o "guardador de carro", o policial, o amigo do trabalho, um desconhecido em situação de ajuda, tantas pessoas, cada uma, uma oportunidade de ser generosamente gentil!

Muitas outras coisas podem ser feitas, com muita criatividade. Pense em quantas oportunidades surgem para ser voluntário em alguma causa, ou em algum projeto, ou ainda em alguma missão especial. Crianças, jovens, adultos, idosos, todos poderão se beneficiar de sua atitude. Afinal, todos sabemos, o amor é o que o amor faz!

Mas lembre-se, independente de quem seja o alvo de sua generosidade, o maior beneficiário será você mesmo! Por isso, termino falando de uma pessoa que não tinha casa, não tinha grana, não tinha meio de transporte pessoal nem maiores bens materiais. Apesar disso, ninguém nunca conseguiu ser tão generoso quanto ele, marcando a vida de tantas pessoas que já não se podem contar. Ele não comprou um único presente de Natal nem de aniversário para ninguém. Ainda por cima, dividiu o pouco que possuía e soube multiplicar o que não tinha. Sua imagem era a da mão estendida, do abraço fácil, do tempo para sentar e conversar com gentileza, apesar de saber colocar os impostores em seu devido lugar. Sua visão eram as pessoas, o que cada uma delas era e nunca o que possuíam.

Ele conseguiu fazer com que prostitutas se tornasse dignas e reis se sentissem desprezíveis. Seu toque era como seu olhar, firme e gentil. Os materialistas de seu tempo o rejeitaram, pois ele não comprava ninguém e tampouco se vendeu para quem quer que fosse. Ele foi o amor encarnado em atitudes de generosidade. E finalmente, quando se esgotaram todas as possibilidades e nada mais havia a ser feito, ele entregou sua própria vida. Ele foi, ele é, e ele será sempre o Natal Encarnado, o Cristo, Emanuel, Deus conosco.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Saci Noel está chegando!

A alucinada temporada natalina ganhou um tremendo impulso com a popularização em escala global da “Black-Friday”. Este dia foi estrategicamente colocado entre o Dia de Ações de Graça (um feriado nos Estados Unidos), e o primeiro domingo do Advento, criando definitivamente outro sentimento para o que deveria ser um período de paz e preparação para o Natal. Estamos perdidos.

Mesmo sendo coisa de três anos no Brasil, a Black Friday existe há muito tempo na terra do Tio Sam. Foi por volta da metade da década de 1970 que realmente se popularizou, marcando o início da temporada de caça aos presentes de natal.

A terra do Tio Sam é realmente pródiga em transformar boas ideias em produtos de consumo. Tudo está venda e a discussão passa a ser apenas o preço. Desta forma, aproveitando o clima sentimental entre o dia de ações de graça e o natal, a Black Friday inaugura a temporada de correrias para as compras de natal. A expectativa foi invertida. Mais do que nunca, gratidão e o amor tornaram-se produtos precificados conforme a culpa de cada pessoa, sendo que as grandes questões da humanidade – ou pelo menos as do indivíduo - ficam resolvidas com quinquilharias.

Da sexta-feira negra até o Natal, serão dias de correria, consumo e verdadeira ansiedade, mesmo para quem não comemora o Natal cristão, seja lá por que motivo for. Nos Estados Unidos, a chatíssima era do politicamente correto faz muitas pessoas desejarem umas às outras “Happy Holidays”, em vez do tradicional “Merry Christmas”. Mal sabem elas que acabam desejando literalmente um “feliz dia santo”, e o tiro sai pela culatra pela ignorância pagã.

De qualquer forma, mesmo o tradicional ‘feliz Natal’ já não tem o seu sentido original, pois o que era para ser a celebração de um período foi reduzido a comes & bebes com alguns presentes em um dia apenas.
Tudo deve estar comprado, empacotado, embrulhado e pronto para ser entregue e engolido até o dia 25 de dezembro. À medida que passam os dias e se aproxima o clímax natalino, o prazo final, cresce a ansiedade e o stress. Papais-noéis materializados nas fachadas, pulando a cerca, saltando de paraquedas, pendurados no teto, apenas aumentam a pressão: compras! Sonhos e desejos de consumo substituem um sentimento que deveria ser de paz, reconciliação e alegria.

Historicamente, o natal nunca foi o foco do cristianismo e apenas vários séculos depois do nascimento de Cristo as coisas começaram a mudar. A Páscoa sempre foi a festa central por séculos, onde a Ressurreição do Filho de Deus era o verdadeiro motivo de celebração. Afinal, todas as religiões têm o seu natalício, mas apenas o Cristianismo veio com a proposta da ressurreição, algo que a própria Bíblia reconhece que é uma mensagem louca para quem não crê.

Vale a pena dizer que não tenho nada contra todos os símbolos tradicionais do Natal, inclusive o bom velhinho, o pinheirinho e a neve nos trópicos, muito pelo contrário: em minha família, estas tradições contribuíram muito para fazer a alegria da criançada. E hoje, netos e netas se deliciam com um natal de arregalar os olhos, lamber os beiços e sorrir de alegria! Imagens, sons e cheiros que foram eternizados em meio à leitura bíblica do nascimento de Cristo. Os símbolos do Natal, devidamente colocados, contribuem para a magia desta época, para o encantando da criança que temos em nós e da criançada de todos os tempos.

Porém, poemas, canções, enfeites, estratégias de marketing, tudo aos poucos foi sendo usado para criar o “clima” artificial de Natal que, na verdade, tornou-se basicamente comercial. Um dos ícones do Natal, o fofo e rechonchudo Bom Velhinho da Coca-Cola, foi a melhor campanha de todos os tempos para colar o Natal à sedução do mercado. Mas tudo isso passou da conta, está se tornando insuportável.

Cada vez mais me sinto como o peru escolhido para a ceia, dia a dia forçado a engolir, via marketing de gosto duvidoso, todo tipo de produtos, sendo lentamente preparado para o abate no altar do deus mercado que, na Bíblia, foi identificado como Mamom. A seu respeito o menino da manjedoura que se tornou o Cristo exortou: ninguém pode servir a dois senhores. Mas parece que no Natal tudo pode, assim como no carnaval. Estas duas festas possuem hoje muito mais pontos em comum do que imaginamos.

Até mesmo as igrejas cristãs, salvo as exceções da regra, entraram e competem comercialmente com a sociedade, amortizando a culpa através das indulgências modernas: exploração do dízimo, das ofertas e de mão de obra, chamando seus funcionários de “missionários”, que devem sofrer muito por Cristo e vender a placa da igreja com seu sangue. Ao final, escravizam ainda mais o crente usando artifícios que o marketing usa: a salvação, a prosperidade e a felicidade são alcançadas através de suaves prestações. Mas ninguém deseja prestar atenção nos juros embutidos nestes produtos, neste caso, uma teologia focada na grana do fiel e não no seu caráter.

Desta forma, assim como o Natal perdeu para Papai Noel, o Papai Noel de outrora também parece ter perdido sua força. O que nos resta? 

No Brasil imaginei o provável sucessor do Papai Noel: para simbolizar o Natal brasileiro, o Saci-Pererê com seu indefectível shorts e gorrinho vermelho, surrupiados do bom velhinho que se aposentou definitivamente após cumprir sua missão. E o Saci ainda tem um apelo, já que é um molequinho: pode também substituir o menino Jesus, já que ele não sai da manjedoura e se recusa a ocupar os corações dos homens o resto do ano.

Viva o Saci Noel!

Esta figura mítica é brincalhona, bem humorada e encarna bem o ideal do “eu sou brasileiro, não desisto nunca”. Afrodescendente e deficiente, saiu do anonimato para a história. Foi imortalizado por Monteiro Lobato. Conseguiu superar obstáculos com maestria e criatividade, encontrando seu espaço em um país onde importado é sinônimo de qualidade, mesmo que seja uma porcaria.


Porém, a grande marca de sua personalidade é seu espírito irreverente, sendo por muitos considerado o típico símbolo do “brasileiro malandro”, mais do que o importado (viu só?) José Carioca, o papagaio de olhos azuis que tipificou a malandragem.

O brasileiro é geralmente assim e cada dia parece reforçar o estereótipo: se tem muvuca em algum lugar, pode contar, lá estão eles (todos nós) no meio da fuzarca! Quem viaja para o exterior sabe, quando encontram em qualquer lugar representantes da pátria amada, idolatrada, salve, salve, fica fácil de identificar a nacionalidade dos brazucas. Nesses momentos, os antes desconhecidos se enturmam tornando-se íntimos de uma hora para outra, em meio a fortes abraços e beijos, como se a distância da pátria criasse vínculos mágicos.

O gringo que eventualmente está acompanhando alguém da turma pergunta, admirado, se são velhos amigos. E fica mais perplexo ainda quando ouve a resposta, não, nos conhecemos agora! Assim somos, como um grupo de araras que se encontra, fazendo a alegria de uns e a vergonha de outros, mais dados à empáfia anglo-saxônica.

O Saci é o brasileiro sem freios. Atazana a vida de peões no campo ou de velhas cozinheiras em seu dia a dia. Em casa, esconde utensílios, roupas, acessórios e ferramentas: cadê o martelo? Sumiu o par da meia? Foi o Saci, e ele sai correndo dando risadas. Sua carapuça vermelha é a fonte de seu poder mágico e dissimulação. Coisa difícil é pegar um Saci, mas o Tio Barnabé ensinou direitinho para o Pedrinho e Narizinho:

- Pega uma peneira cruzeta, daquelas que tem duas tiras mais grossas de palha cruzadas no fundo, espera um dia de vento e quando vir um redemoinho jogue a peneira em cima. O Saci ficará preso. Em seguida, coloca com cuidado uma garrafa escura debaixo da peneira e espera um minutinho, ele vai se esconder dentro da garrafa! Com cuidado, tire rapidamente a garrafa e fecha com uma rolha que tenha uma cruz riscada, que é para ele não sair. E, muito importante, tira o capuz do Saci! Sem a carapuça, ele perde seu poder.

Cruz na rolha, capuz escondido, ele fica sob controle. Mas alguma coisa acontece no final de ano. Saci é Saci e de alguma forma ele se livra da garrafa ou alguém deliberadamente solta o danado, que parece estar ocupar todos os espaços ao mesmo tempo! Lá vai ele, fazendo suas artes, enganando, aprontando e encarnando em muitas pessoas.

O espírito do natal foi substituído pelo espírito do Saci.

Ele vai fazendo todo mundo de bobo: ilude com a ideia de que “presentes simbolizam amor”, some com o dinheirinho extra do décimo terceiro salário (deveria ser usado para quitar ou amortizar dívidas?), engana devedores oferecendo mais crédito na praça, depois os credores que deram o crédito levam o calote, transforma o já difícil trânsito num inferno, gera sentimento de culpa por mais uma vez ter torrado o dinheiro, lota igrejas e teatros tropicais com espetáculos de inverno, irrita a não poder mais os pedestres com musiquinhas de natal, delen dendén, delen dendén, delen dendén, dendénnnnn.... insuportáveis harpas!

E o Saci continua suas peraltices, faz pessoas beberem além da conta, traveste cidadãos sisudos em ridículos papais-noéis bonachões de barrigas caídas, aumenta os preços e depois oferece descontos imperdíveis para tudo aquilo que na verdade ninguém realmente precisa, invade as cidades com decorações exageradas ou sem sentido, que se tornam símbolo de ostentação para muitos, faz as pessoas prometerem coisas que jamais cumprirão e tantas outras coisas que parece que o poder de sua carapuça não tem fim.

Em meio a tudo isso o verdadeiro espírito do Natal passa quase despercebido. É cada vez mais substituído pelo consumismo numa época que era para ser de reflexão e harmonia na intimidade do lar. Tornou, afinal, a data em um espetáculo circense, onde a lona desce sobre cidades inteiras tomadas pelo sentimento de consumo e desperdício.
Diante desta realidade, algumas coisas podem ser feitas. Começando com o maior apelo em nossa sociedade, o econômico:

Não se deixe levar pela pressão antes do natal. Poupe seu dinheiro, programe-se com a família para fazer suas compras depois do dia 25! Deseja comprar presentes? OK, sem problemas, mas pensa comigo: se o comércio entra em liquidação após o dia 25 de dezembro, com descontos muito bons, que tal comprar muito mais pelo custo que você teria se gastasse antes do natal? Faz sentido? E com uma vantagem muito boa: sem aquele tumulto todo nas ruas, shoppings, lojas. Aproveita para passear com a família gastando bem menos!

Mas temos outros bons motivos também.

Você pode começar a preparar algumas coisas feitas em casa, com sua família, nos dias que antecedem o natal. Biscoitos, bolos, rosquinhas, doces, artesanatos, são tantas as possibilidades que você vai se surpreender. E o melhor, vocês terão momentos que serão recordados por toda vida. Comecem uma tradição de mansinho, mas com firmeza!

Uma vez que o verdadeiro Natal não é apenas um dia (25 de dezembro), mas se estende até dia 06 de janeiro, vocês terão duas semanas para fazerem e viverem um Natal de paz, tranquilidade e reflexão. O Deus mercado e seus santos (inclusive muitas igrejas) nos empurram a data-limite de 25 de dezembro goela abaixo, para criar este sentimento de pressa, urgência, ansiedade, onde as pessoas, tomadas pelo espírito do Saci, deixam de pensar, abandonando o raciocínio crítico e se deixam levar por apelos bobos, agindo como loucas.

Resista, subverta a ordem das coisas: sobreviva ao caos, celebre o Natal!

E caso esteja sem ideia, comece pelo básico, como diria o amigo Cláudio: plante uma árvore.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Duas toneladas


Duas toneladas

1.    Certa vez, um homem saiu a caminhar pela cidade. Caminhava cantando canções que aqueciam o coração e servindo o povo com alegria.  Proclamava um reino de paz e justiça e todos gostavam dele. Ele falava o que fazia e fazia o que falava.

2.    Enquanto caminhava, dois amigos passaram a seguir seus passos. Porém, estes amigos o seguiram com objetivos diferentes.

3.    Assim, para cada gesto de amor oferecido pelo homem, duas pessoas eram discriminadas por seus amigos. Para cada dinheiro doado, duas pessoas eram espoliadas. Para cada bênção ministrada, duas pessoas eram amaldiçoadas. Para cada palavra de consolo, duas ameaças eram feitas. Para cada flor plantada, duas eram pisadas. Para cada criança abraçada, duas eram abusadas. Para cada alma perdoada e acolhida, duas eram discriminadas e excluídas. Para cada mão estendida, duas pessoas eram empurradas para fora.

4.    Para cada gesto de paz e justiça, duas vezes mais ações de discórdia e exploração eram praticadas. Para cada quilo de alimento doado, dois quilos de lixo eram jogados nas ruas.

5.    No final de seu caminho, o homem olhou para trás e seu coração encheu-se de dor. De tudo que havia feito de bom, havia duas vezes mais problemas causados em seu nome. Tristemente reconheceu que sempre haveriam dois ladrões ao seu lado.

Conversava com um amigo sobre algumas atividades cristãs em Curitiba quando ele compartilhou uma informação acerca da “Marcha Para Jesus” de 2012. Animado, informou que uma tonelada de alimentos havia sido recolhida durante o evento. Porém, com certa tristeza no olhar, disse que ao final da marcha um pequeno grupo percorreu o trajeto feito e recolheu duas toneladas de lixo.

Fiquei perplexo. Não pude deixar de lembrar as palavras do Mestre Jesus: “muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”. Pensando no testemunho geral dos evangélicos na sociedade, uma frase irônica surgiu em minha mente: “muito lixo será espalhado, mas pouco recolhido”. Para cada notícia boa, existe o dobro (pelo menos) de escândalo na sociedade.

Sintomaticamente, percebemos que a capacidade de produção de lixo pelo povo evangélico tem sido muito maior que a sua capacidade de fazer coisas boas. Sei que isto não é exclusividade deste povo, mas nossa responsabilidade é diretamente proporcional aos valores que defendemos.

O lógico seria ao menos a marcha sem lixo; o ideal seria exatamente o contrário: a transformação do espaço público com boas obras, em vez de deixa-lo cada vez mais cheio de lixo. Mas como exigir lógica de líderes que apenas pensam na promoção pessoal e demonstração de força para uso político? Seus carros de som equivalem-se a altares a Mamon, sendo os pastores midiáticos seus profetas. A verdade é sacrificada em nome do relativismo gospel.

Certa vez escrevi um comentário sobre a “Marcha para Jesus”. Esta marcha tem sido um testemunho que fala mais da falsa comunhão cristã do que qualquer evidência de unidade. Aparentando união na diversidade, na verdade mostra exatamente o contrário: as múltiplas faces de igrejas dominadas por vaidades pessoais, onde cada novo líder pastoreia seu rebanho feudal.  Quem marcha promove o Jesus Gospel, o Jesus pop consumista, a teologia que prospera líderes e empobrece associados.

Jesus é o cabeça da igreja. Porém, numa metáfora mitológica, hoje esta cabeça está cheia de víboras que competem entre si, mordendo-se e envenenando umas às outras. A igreja institucionalizada tornou-se como Medusa, paralisando todos os que dela se aproximam. João Batista e Jesus bem qualificaram a liderança desta igreja, chamando-os de raça de víboras. Pelos seus frutos serão conhecidos, e não apenas por suas palavras.

O lixo deixado para trás é um exemplo constrangedor que põe o dedo na ferida do povo evangélico: suas palavras não têm sido confirmadas por sua conduta. O crescente sentimento de ira e indignação contra a liderança evangélica atual tem sido um indicador que aponta para a doença do povo evangélico. Esta ira não é por causa do conteúdo da mensagem, mas devido ao lixo espalhado diariamente pelo caminho.

Para piorar, em vez de olhar para si e suas instituições e fazerem uma autocrítica, a liderança usa a malandragem e capitaliza a indignação externa, empurrando a igreja numa cruzada medieval contra qualquer adversário. Mesmo execrados pela opinião pública aumentam dia a dia seu eleitorado, servindo-se da alienação e comodismo de quem elege terceiros para ser sua consciência.

Com típico comportamento sebastianista, líderes messiânicos posam como salvadores da igreja. Com declarações apocalípticas em nome da família, da ética e da moralidade desejam apenas aumentar seu domínio. Este discurso interno somente engana quem também é seduzido pela mesma vaidade: o poder.

Melhor seria se o povo de Deus ficasse em casa, em silêncio e oração, saindo apenas para testemunhar com atitudes a verdade que alega estar em seu coração. Se assim fosse, quando um evangélico assumisse qualquer cargo público seria celebrado com boas vindas e não repelido com tanta veemência devido ao rastro de lixo de seu passado.

A palavra do cristão contra seus opositores, conforme o Apóstolo Pedro exorta, deve ser feita com mansidão e amor: sem discursos irados, incitação ao ódio, à violência e a qualquer tipo de guerra santa. Se algum cristão sofrer, que não seja devido a serem assassinos, ladrões, criminosos, fofoqueiros e oportunistas – mas devido à prática da solidariedade em meio a uma geração perversa.

O desgaste de forças, energia e recursos para explicar que o verdadeiro Evangelho não deixa lixo por onde passa tem sido em vão. O lixo produzido se acumula dia a dia, demonstrando que nossa prática está totalmente equivocada e testemunhando muito mais alto que qualquer pregação ou discurso.

Para cada boa ação que os evangélicos fazem, duas vezes mais problemas eles mesmos causam, deixando a população confusa e sem esperança, além do mau cheiro no ar.

O enriquecimento ilícito através da lesiva teologia da prosperidade, os recursos investidos cada vez mais em estruturas e megatemplos, a indiferença social da maior parte da comunidade cristã, a exclusão dos diferentes, a corrupção e briga entre facções evangélicas, e tantas outras práticas, são indicadores do lixo que tem sido espalhado pelo caminho.

Se produzimos lixo é porque deixamos de lado nossa missão e nos tornamos discípulos de Belzebu, o Senhor das Moscas. As moscas vivem do lixo e em benefício próprio, se alimentando da morte.

A verdadeira igreja é desafiada não a produzir mais lixo, mas a fazer compostagem, fertilizando a sociedade. Jesus e seus discípulos são como as minhocas: sem perder sua integridade, transformam tudo que tocam em algo novo e orgânico, gerando substrato para novas formas de vida. A igreja é a comunidade de um povo que caminha em comunhão e celebra uma nova história.

Chega de lixo pelo caminho. Que a igreja deixe apenas os frutos do amor e da solidariedade  por onde passe.

quinta-feira, 28 de março de 2013

A Páscoa, a Eucaristia e Judas: Quem trai o Filho do Homem?



Na sua última celebração pascal judaica, Jesus Cristo estabeleceu também a primeira páscoa cristã. Encerrando toda uma caminhada sacrificial iniciada com o Êxodo de Moisés, Jesus desafia agora cada um a viver uma nova vida, onde não há mais judeu nem gentio, mas a humanidade. Todos se unem através deste último e suficiente sacrifício, onde Deus oferece a si mesmo em Cristo, trazendo a paz e reconciliando os homens com ele mesmo.

Desta maneira, em um determinado momento da história Jesus introduziu um ponto de encontro. Toda a humanidade convergiu para este ponto, como se ele fosse o olho de um grande redemoinho existencial a sugar tudo para si, continuamente, atraindo até hoje todas as coisas. Este ponto de encontro é também uma bifurcação universal, representando uma encruzilhada aonde todos os caminhos chegam e de onde partem apenas dois distintos. Um é largo, pois é a somatória de todos os outros. O outro é estreito, pois representa em sua simplicidade a alternativa para um novo e vivo caminho. A cruz é o símbolo deste caminho e a Páscoa é o seu portal. Quem seguir a cruz passará pelo portal.

Jesus oferece ao longo do tempo a possibilidade para cada pessoa, em sua própria trajetória de vida, encontrar a mesma bifurcação e seguir com ele no novo caminho. Se isto acontecer, esta mudança significará um momento de guinada pessoal ou tomada de consciência. Seguindo com Jesus pelo caminho, sua história será para sempre marcada por aquela decisão: antes de Cristo e depois, com Cristo.

Para os cristãos, a páscoa é a comemoração anual do sacrifício e da ressurreição de Jesus Cristo, celebrando a entrada para o caminho da vida. A celebração da páscoa é a representação concreta do portal espiritual que marca a passagem de cada pessoa para a grande aventura que é caminhar com o criador.

Além da páscoa, a igreja celebra na Eucaristia este momento precioso. Os elementos básicos da celebração eucarística são o pão e o vinho, representando a comunhão e o estabelecimento sacrificial da nova aliança de Deus com os homens através de Jesus Cristo. Não existe comunhão sem sacrifício, e todo e qualquer sacrifício apenas tem sentido se resulta em comunhão entre as pessoas e das pessoas com Deus. A natureza da comunhão é o sacrifício. Mas o resultado final do sacrifício não é a morte, ou a tristeza, mas uma vida com alegria e propósito!

Durante a celebração da Eucaristia, existe um momento de necessária contrição onde cada um é convidado a avaliar individualmente sua vida, para então participar da celebração com honestidade. Não é para deixar de participar, mas para reconhecer eventuais erros ou desvios, pedir perdão, se prontificar a reparar qualquer situação e então celebrar: o sacrifício só tem sentido se houver propósito e esperança! O momento da Eucaristia deve provocar o desejo íntimo e a ação em direção a uma vida mais parecida com a vida de Cristo.

Justamente aí a igreja tem omitido uma questão, que Cristo deixou claro enquanto estava com seus discípulos. Tem sabotadores do Evangelho no meio do corpo, e ele disse que um traidor estava presente. Então todos se perguntaram: quem é o traidor de Cristo?

E hoje em dia, quem trai o Evangelho de Cristo? Os verdadeiros inimigos do Evangelho não são os de fora, mas os de dentro da igreja.

Jesus disse “ – O traidor está sentado comigo à mesa”. Isso é muito forte: quem está fora não é o traidor, mas quem está dentro. Dentro de onde? Da igreja, junto ao corpo de Cristo, celebrando a comunhão entre os irmãos. É chocante, mas é a verdade. E Jesus continua: “ – Pois o Filho do Homem vai morrer da maneira como Deus já resolveu. Mas ai daquele que está traindo o Filho do Homem!”

Quem traiu o Filho do Homem? Judas, Que preferiu seus projetos pessoais ao projeto de Deus. Quem, hoje, trai Jesus Cristo?

Dois mil e treze anos depois, celebramos uma nova Páscoa. A força da primeira páscoa cristã continua a agir, apesar dos muitos problemas e desvios do povo de Deus.

A Páscoa demonstra que, apesar de todos os traidores somados ao longo da história, o projeto de Deus está vencendo. A vida venceu a morte e o amor tem vencido o medo devido a uma força que é infinitamente maior que a soma de todas as teologias humanas: o poder da ressurreição de Jesus Cristo.

Mas os traidores continuam agindo, elaborando intricadas teologias que matam Cristo depois de o beijarem com o beijo da hipocrisia.

Estas teologias são vampirescas: derramaram o sangue de Cristo na cruz e continuam a derramá-lo hoje, sorvendo-o através de projetos personalistas, objetivos pessoais e egoístas disfarçados de culto a Deus. Estas teologias buscam justificar o injustificável, promovendo o surgimento de facções religiosas de todas as espécies. São estas teologias...

que causam rupturas e divisões e as disfarçam com templos,

que causam escândalos e os abafam com ritos,

que causam tristeza e as disfarçam com canções vazias,

que causam a morte e as disfarçam com perfumaria eclesiástica,

que promovem o medo mas o disfarça com respeito,

que exploram a miséria mas disfarçam com sacrifício agradável a Deus,

que causam a mesquinharia mas disfarçam com evangelismo,

que promovem a ambição mas disfarçam com missões e templos milionários,

que causam a separação da família mas disfarçam com ativismo familiar,

que causam a sexualidade doentia mas disfarçam combatendo a alegria,

que causam a prosperidade capitalista de poucos mas disfarçam como falsas bênçãos,

que exploram a fé mas disfarçam colocando a atenção para o capeta,

que promovem a radicalidade no discurso mas uma prática ambígua,

.... e você pode ir preenchendo a lista, com certeza você tem a acrescentar!

Teologias que exploram, que causam, que provocam, que promovem tantas outras coisas, mas sempre justificando com uma espiritualidade tendenciosa, com um beijo cínico, com interesses corporativistas e projetos pessoais ambiciosos.

Porém, a ressurreição acontece, as trevas são dissipadas e o verdadeiro Evangelho avança apesar dos traidores de Cristo.

terça-feira, 26 de março de 2013

O Fernando, a Faculdade Teológica e a igreja

O Fernando, a Faculdade Teológica e a igreja



Recebi um e-mail de uma pessoa questionando sobre determinada igreja pagar ou repassar uma oferta para os estudos teológicos do Fernandinho Beira Mar. Em consideração a esta pessoa, e a alguns queridos amigos que me perguntaram sobre a mesma coisa, dou a seguir minha opinião. Bom lembrar que minhas filhas e meu genro fazem parte desta igreja, a quem desejo o bem.

Contribuo, entretanto, como alguém que foi por mais de vinte anos pastor em uma outra igreja protestante e passou uns anos nesta mesma igreja. Reconheço que as instituições religiosas têm por norma não dar satisfação de seus atos para os fiéis, seja qual for sua cor ou sistema de governo. Em geral, consideram qualquer questionamento uma “afronta” à liderança, e os questionadores, além de rotulados e segregados, são geralmente rechaçados em nome de interesses corporativos e projetos institucionais e pessoais.

Sei também que a igreja abriga covardes e interesseiros, promotores de discórdia e aventureiros: o joio no meio do trigo.

Após mais de quinhentos anos de presença do cristianismo católico e protestante no Brasil, a igreja, mesmo sendo maioria esmagadora, não conseguiu produzir mudanças estruturais significativas em nossa nação. Para uma sociedade que se diz cristã, nossos indicadores de ética, moral, valores e justiça são péssimos. Das duas uma: ou o fundamento da igreja é completamente equivocado (a Bíblia), ou sua prática está dissociada de seus valores fundamentais essenciais. Entendo que estamos no segundo caso. Por isso, mesmo arriscando errar, é preciso refletir e agir com coerência e fé.

Nossos maiores problemas possuem origem interna e não são decorrentes de nenhum ataque de grupos ou inimigos externos. Os próprios cristãos são os principais sabotadores do cristianismo.

Quando fui pastor, trabalhei por muitos anos com projetos focados no sistema penal, inclusive conhecendo a realidade prisional de outros países. Conheço nossa realidade, assim como o comportamento de crentes insensíveis, ovelhas gordas que apenas amassam o pasto e desejam exclusividade do pastor: são piedosas no discurso, porém egoístas e discriminadoras na prática.  

Conheço pessoalmente o capelão que está trabalhando em Catanduvas, um cara batalhador e sincero no que faz. Espero que ele, em meio aos seus dilemas e angústias, possa se fortalecer e crescer.

E que muitos fernandinhos e fernandinhas beira-mar encontrem libertação sincera para suas almas aprisionadas. Da mesma forma, que as vítimas e seus familiares também encontrem em Cristo restauração e Graça para prosseguirem com suas vidas.

O email:

“Gustavo, você que é uma pessoa sensata, me diz o seu parecer sobre isso?

É porque eu acho isso um absurdo (...), visto que todos os dias a igreja tem feito completamente o contrário com tantas outras pessoas: tem famílias sem dinheiro pra botar comida em casa, perdemos pessoas todos os dias porque não "cuidamos" uns dos outros, entre outras mil e uma situações! 

E agora somos manchete por investir num cara que acabou com a vida de  inúmeros jovens e de suas famílias: matou sabe Deus quantos - mas a minha igreja torna-se a estrela do dia!
Não estou colocando em cheque a reintegração deste indivíduo à sociedade, tão pouco questiono sua fé com Deus; mas acredito mesmo  que esse curso é uma forma de eliminar um dia de prisão a cada 12 HORAS AULA.... mas.... isso está certo?
Eu não quero falar sobre isso com outras pessoas, nem mesmo expressar minha revolta, porque eu já tenho fama de rebelde. Mas, certamente, em meio à idolatria demonstrada via redes sociais (...), eu seria (considerada) apenas mais uma pessoa ignorante que não está pensando na obra de Deus e em tantos princípios, como o perdão e o amor ao próximo, seja ele quem for.
Enfim...(...), eu acho que vc não vai me fazer sentir idiota, caso eu esteja muito errado!!!
assinado...............”


Minha resposta:

Em primeiro lugar, obrigado por compartilhar suas angústias e perplexidades, me escolhendo para seu desabafo pessoal. Minha primeira preocupação é, ao ser digno de tua confiança, não desapontá-la: afinal, você me vê como um cara ‘sensato’ e isso é muito arriscado: nem sempre ajo com sensatez! Mas, se por algum motivo existir algum idiota em meio a qualquer tipo de questionamento, não será você, mas quem não gosta de ter que dar satisfações.

Pessoas que fazem perguntas não são idiotas, apesar de existirem idiotas que não fazem perguntas.

Não desejo me referir ao bolsista como “Fernandinho Beira Mar”. Seu apelido é um estigma social que ele terá de carregar vida afora por conta de sua vida bandida. Porém, acho que ele não se incomodará de tratá-lo com o respeito que ele não teve para com suas vítimas. Para todos os efeitos, ele é o Fernando.

Respondendo à sua pergunta, em primeiro lugar cabe uma rápida explicação sobre a situação da igreja no Brasil. Muitas vezes os questionamentos sobre suas ações são na verdade uma tentativa de entender o que é que está se passando com a igreja, imersa em tantas polêmicas.

Em meio a tantas contradições pelas quais passa o povo chamado evangélico, dois pecados-atitudes fundamentais têm caracterizado a igreja: a ambição e a omissão. Vivemos dias de trevas, e não de luz.

No grupo da AMBIÇÃO, é condenável e lamentável a pregação e o culto a Mamon, o deus do dinheiro e da cobiça. Pastores e crentes tentam justificar seu amor ao dinheiro espiritualizando sua mensagem. A chamada ‘teologia da prosperidade’ é uma tentativa pseudointelectual de dar ares acadêmicos à fala do capeta. Seus profetas midiáticos – sem exceção – são inescrupulosos, usam artifícios para alavancar seu patrimônio e são uma afronta à mensagem cristã de simplicidade e trabalho honesto.

Estes profetas de frases de efeito e da cólera para com o pecador têm feito muitos discípulos que, por sua vez, subdividem-se em dois subgrupos.

Existe o subgrupo dos cínicos, que pregam explicita e abertamente a mensagem da prosperidade, produzindo líderes indecentemente ricos em relação aos seus fiéis. Seus principais representantes estão nas mídias abertas e pagas: seu patrimônio é imenso e está em seu nome ou em nome de laranjas, podendo ainda estar disfarçadamente em nome de sua própria igreja, que é a extensão do patrimônio pessoal de seus fundadores.

O outro subgrupo é formado pelos hipócritas: eles não estão tanto em evidência, apesar de usarem programas de rádio, aparições em shows gospel aqui e ali, e assim por diante. Até aí nada de mais, todos podem e devem usar os recursos disponíveis para fazerem o bem, desde que bem intencionados e com honestidade. Porém, seus megatemplos e superigrejas denunciam seu discurso espiritual, desmascarando governos absolutistas. Eles gostam de condenar os cínicos, mas fazem o mesmo só que de outra maneira. Essa turma investe pesado em estruturas, gostam de bens imóveis ajuntando tesouros na terra, em detrimento no foco da mensagem cristã – as pessoas. Para isso, usam o discurso da piedade e a lógica capitalista para justificar a ambição e sede de poder temporal.

Pensa comigo: se os cristãos e seus líderes acreditam tanto na segunda vinda de Cristo, conforme está escrito nas Escrituras, então porque investir tanto em patrimônio, estruturas e templos? Isso tudo ou ficará para outros, ou será destruído. Não tem sentido. A não ser que na verdade ninguém acredite nisso e entraram no jogo do ter para demonstrar poder.

Bom, existe também um segundo grupo, o da OMISSÃO.  Este grupo congrega um número bem maior que o primeiro, apesar de fazer bem menos barulho, pois geralmente pregam um evangelho light, inodoro e sem gosto. É formado por igrejas de todos os matizes teológicos, principalmente as igrejas tradicionais e históricas. Este grupo é muito articulado e costuma navegar com facilidade nas esferas do poder. Chamam-se de equilibrados e produzem excelente teologia. Porém, estão mais interessados em seus projetos denominacionais e não conseguem viver em unidade. Brigam constantemente entre si por espaço, disputam cargos e posições (internamente e externamente) muitas vezes com truculência. Algumas desenvolvem uma política eclesiástica que deixaria Brasília corada de vergonha. Creem que devem focar em estratos sociais como estratégia proselitista, rodeando o mundo para ganhar uma alma, mas depois a aprisiona a rituais sem fim e ordenanças de homens.

Gostam de se chamar “Denominação”, justificam suas necessidades de divisão como decorrentes de ‘teologias irreconciliáveis’, mas, como bem disse C. S. Lewis a seu respeito, não passam de facções como aquelas de Paulo, Apolo, Cefas e Cristo, (1 Coríntios).

Cabresteiam seus crentes com o discurso de “obediência às autoridades” e qualquer voz discordante é sutilmente eliminada ou intimidada. Diante do escândalo da pobreza, da fome, da injustiça, dizem que estas coisas são assim mesmo, Jesus disse que sempre ia ter pobre por aí. Adoram a desculpa de que a “igreja é um hospital e um lugar para pecadores”, mas não liberam seus pacientes para serem cidadãos no mundo. 
Insidiosamente, mantém a doença para tirar seus recursos e manter o caríssimo ‘plano de saúde’ que só vai curar o paciente na eternidade. Mas aqui, pague suas mensalidades na forma de dízimos.

Estas igrejas “sérias” são departamentalizadas, amam todas as formas de (C)omissões, separam constantemente as famílias em suas atividades, conforme o nicho de mercado. Possuem um discurso de democracia e liberdade, mas não toleram diferenças, começando pelas teologias alheias. São hipócritas nos usos e costumes, seletivos com as pessoas, coam mosquitos e deixam passar cáfilas (adoro esse coletivo!). Domingo após domingo reúnem-se em seus guetos denominacionais para celebrarem as últimas conquistas e lançarem novos “desafios financeiros”, que mantém o pessoal ocupado para não pensar bobagens.

Dizem-se defensoras da família, porém tornam a vida do crente um constante correr de casa para a igreja e para o trabalho, e vice-versa. São as chamadas igrejas programáticas: preenchem a vida dos fiéis com atividades sem fim e monitoram os dizimistas como a Receita Federal monitora os contribuintes: na surdina, mas com eficiência! Quando o caixa está baixo, fazem como o governo: não ajustam sua administração, mas lançam mais apelo (leis) para aumentar a arrecadação, geralmente mostrando fotos de crianças pobres, projetos sociais e perdidos em geral.

Condenam pessoas como Fernando, mas são traficantes no mercado negro religioso de neo-indulgências: vendem a salvação disfarçada de bênçãos, dízimos, assiduidade nos programas, e com programas de fidelização. O crente é torna-se um cliente e um associado! A defesa da Igreja por seus membros muitas vezes iguala-se à histeria e aos gritos de torcidas organizadas e suas facções, com palavras de ordem e idolatria escancarada.

Desta forma, as igrejas da ambição ou as da omissão usam toda e qualquer oportunidade de autopromoção para validar sua força e sua fé na sociedade. Quando Jesus disse que a mão esquerda não deveria saber o que a mão direita fazia, ele não conhecia a força do facebook e mídias sociais, nem das estratégias de marketing, essa ferramenta infernal para dizer que o que é errado é apenas o que os outros fazem ou pensam.

Veja bem: o que as igrejas, em geral fazem com pessoas como você, que pergunta e faz questionamentos? Você disse que era considerada uma pessoa ‘rebelde’, por perceber sérios problemas dentro de sua denominação. Então, a primeira coisa que fazem é rotular e desacreditar, insinuando uma baixa espiritualidade por discordar da decência e ordem das coisas e ousar ter um pensamento crítico.

Mas, afirmo, você não é rebelde. Você, como muitas pessoas, possui algum receio para se abrir com sua liderança, e isso é sintomático. Você tem discernimento suficiente para enxergar a idolatria institucional e até mesmo a idolatria pessoal e dos bajuladores acríticos. Você é uma idiota por conta disso? Se for, somos dois, três, mais do que imagina! Não permita que te rotulem. Se você tem espírito crítico, questione profeticamente o status quo e, se te encherem muito o saco, saia fora e busque outras paragens.

Então, deixa eu te dizer mais uma coisa: você é mais corajosa do que a maioria que simplesmente se omite ou permanece calada, dizendo: “OK, qualquer igreja tem seus problemas, então eu fico por aqui mesmo, quietinho no meu lugar.” Você tem coragem para ir contra a corrente ufanista-denominacionalista. O verdadeiro espírito profético está em saber discernir e comparar a prática externa com a atitude interna, o discurso com a vida, a palavra com o exemplo. Este é o principal indicador de responsabilidade sócio-ambiental-espiritual (Ok, inventei essa...). Todo erro deve ser denunciado, toda dúvida deve ser respondida e o discurso intimidador de ‘obediência’ às autoridades serve apenas para favorecer o opressor investido de um poder que, diga-se, não lhe pertence.

Bom, e o caso do Fernando?

Em primeiro lugar, não ceda à tentação de deixar-se possuir pelo ressentimento. Exerça a graça e a misericórdia para com teus irmãos e irmãs, seja o evangelho vivo nas mãos de Deus. Não julgue a iniciativa da igreja – mesmo se tomada em seu nome por alguns de seus membros. Muitas vezes, e isso é comum nas instituições, a liderança nem queria correr este risco. Mas sempre existem decisões internas desleais, que dizem “sim” na frente uns dos outros, mas depois sabotam as decisões tomadas em colegiado. Vaidades...

E se a igreja fez de boa fé, mesmo sendo ingênua ao não avaliar o impacto de sua ação?

É lícito alguém desejar mudar de vida? É claro que sim, pelo amor de Deus! Por isso não permita que qualquer parcialidade pessoal ofusque tua visão. Tem muita gente que criticou a decisão de sua igreja (de dentro e de fora), mas aposto que o sentimento não revelado é o de egoísmo, falta de amor ou pura maldade mesmo, por entender, como nosso amigo profeta Jonas, que Deus não deve demonstrar sua graça a certo tipo de pecador.

Certamente tua igreja, que muitas vezes é tão incoerente como qualquer uma outra, é também uma bênção de diversas maneiras e faz muitas coisas boas. Assim como eu e você.

Uma dessas coisas boas, apesar do discurso chauvinista de alguns beirando a idolatria no facebook (eu mesmo vi), é oportunizar para pessoas como o Fernando a possibilidade de reflexão e transformação. Veja, estou apenas dizendo ‘possibilidade’. Não sei se ele é sincero ou oportunista. Outro Fernando, o Collor, disse uma vez que “o tempo é o senhor da razão”, e o tempo provou que ele estava certo. Sejamos prudentes e pacientes, virtudes em falta hoje em dia onde todas as coisas devem ser decididas rapidamente. Talvez a pressa tenha sido a causadora de toda essa situação.

É direito do Fernando, e concordo, usar suas horas de estudo para amortizar seus anos de cadeia. Vai que ele tem uma crise de consciência verdadeira e resolve abrir o bico, entregando quem ele subornava, ou quais autoridades compravam suas drogas, quem era o ‘cabeça’ por trás de seu esquema... Imagina o que pode vir se ele realmente estiver a fim de limpar sua consciência e resolver não apenas confessar seus pecados mas restituir de alguma forma em bem o que ele provocou de mal – assim como Zaqueu!

Mas mesmo que ele não faça nada disso, tem o direito de mudar de vida. Quem deseja lucrar de alguma forma com isso será julgado por Deus.

Por outro lado, você afirma que existem pessoas que passam necessidades em sua igreja e questiona o porque pagar um curso para um “bandido”. E ele é um bandido até que se prove em contrário, a própria liderança da sua igreja não coloca a mão no fogo por ele. Desconheço os motivos íntimos pelos quais sua igreja, ou qualquer outro cristão, resolveu pagar o curso do Fernando, ou ajudar esta ou aquela pessoa e não outra.

Também pergunto: se sei que existe alguém passando necessidades, ou precisando de alguma ajuda, o que é que eu estou fazendo? Porque tenho que esperar que a instituição faça o que é minha responsabilidade fazer?

Acho intrigante que as pessoas achem bacana “a igreja” fazer o bem, mas se omitem pessoalmente. Mas esse comportamento é uma das tristes consequências da institucionalização da igreja: ela tira dos crentes sua responsabilidade individual social e missionária, criando secretarias e departamentos de ação social e missões. E o crente fica feliz pois “paga” e transfere via dízimos e ofertas para que alguém faça o que ele deveria estar fazendo. Mas, novamente, assim é que a igreja mantém sua estrutura e sua hierarquia de poder!

Cada igreja passa por estas situações, e não é apenas a tua, creia-me.

Voltando ao Fernando: mesmo com os condicionamentos denominacionais de uma faculdade denominacional, ele estará tendo contato com a Bíblia. Acho isso maravilhoso, principalmente para uma pessoa como ele. Como muitos, teve que ir pra cadeia para começar despertar para a realidade espiritual. Pena que a sociedade não goste do ensino bíblico nas escolas mas aceite nas cadeias...

Este livro é único e conta a maior de todas as histórias, apesar de ser tão manipulado por pessoas sem escrúpulos. Ela contém o poder de Deus e é a leitura mais libertadora existente sobre a face da terra. É uma tremenda hipocrisia, preconceito e cinismo qualquer pessoa achar que alguém não seja merecedor da Graça de Deus. Se nós o fomos, porque ele não?

Pra falar a verdade, eu acho que Jesus fica muito mais à vontade com o Fernando do que com a maioria dos religiosos de nossos dias. Ele curtia estar na presença dos pecadores, pois podia mostrar um caminho alternativo a pessoas sinceras. Cristo detestava e se irritava profundamente com os religiosos de seu tempo devido à sua arrogância e hipocrisia.

Meu desejo é que você continue a exercer com coragem seu papel profético, tenha humildade para tratar com graça seus irmãos e alegre-se com as vitórias, mesmo parciais, do Corpo de Cristo!

E se um dia, por algum motivo, o Senhor mostrar a você que é chegado seu tempo de mudar, ou que é a hora de sair de sua facção ou comunidade eclesial, faça isso em paz. Se estiver realmente interessada em ajudar sua igreja, ao sair diga seus motivos para sua liderança. Não é pecado sair, as denominações nunca existiram. O que é pecado é a ambição, a omissão ou a busca da glória dos homens manipulando a Palavra de Deus.